O Caminho de Santiago de Compostela hoje

DICAS PARA O MODERNO PEREGRINO

Texto e fotos © Guy Veloso, 1999 (reg. Biblioteca Nacional).

Imagine só: em um mês percorrer a pé mais de 700 quilômetros cruzando toda a Espanha de ponta a ponta! Caminho de Santiago de Compostela, rota medieval de peregrinação com mais de 11 séculos de existência, hoje em dia frequentado por levas de andarilhos brasileiros… Misticismo? Busca religiosa? Também, mas não a regra. Há de tudo: desportistas, turistas, esotéricos, devotos, pessoas de todas as idades e nacionalidades. De uma coisa nenhuma delas escapará: um grande encontro consigo mesmas.

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Puente la Reina. Foto (c) Guy Veloso

Histórias e lendas.

Tudo começa unindo fatos históricos ás lendas. Contam que São Tiago apóstolo de Jesus teria sido sepultado em um pequeno bosque de uma outrora despovoada e longínqua região da Galiza, então província do império romano. Quase 800 anos mais tarde, descoberto por cristãos, esse lugar tornou-se a meta de um dos três itinerários mais conhecidos e percorridos do cristandade (junto com o caminho de Roma e o de Jerusalém). A rota Jacobeba (de jacob, Tiago em latim) teve seu auge nos séculos XI e XII e foi praticamente esquecida a partir do século XVII. Mas, a partir da primeira metade do século xx, o trajeto foi gradativamente “redescoberto’’, criando-se associações para o estudo e preservação do Caminho, como ajuda aos modernos peregrinos.

O caminho hoje.

A cada ano há entre 30 a 50 mil peregrinos percorrendo as rotas que levam a Compostela nas três formas reconhecidas pela igreja e pelas associações de peregrinos como formas autênticas de peregrinação: a pé, de bicicleta ou a cavalo. Embora não haja um ponto de partida definido (muitos europeus saem da porta de sua casa, seja ela onde for), a maioria acabam escolhendo um dos pontos próximos da fronteira francesa, no caso, Saint-Jean-Pied-de-Port ou Roncesvalles, pela rota navarra, ou Somport, pela rota aragonesa (vide mapa). Ambos os trajetos encontram-se pouco depois na cidade espanhola de Puente la Reina, formando um só caminho até a cidade de Santiago.

O Brasil não escapou desta onde: com o lançamento, no inicio da década de 90, do livro “O Diário de Um Mago’’, em que Paulo Coelho conta suas andanças no caminho, a rota Jacobeba tornou conhecida no país. Pouco a pouco, cada vez mais brasileiros viviam esta intensa e misteriosa viagem pelos bosques, montes e campos espanhóis, o que levou a ser criada por Danilo Tiisel, em 1995, a Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela – Brasil, com sede em são Paulo, a primeira entidade do gênero na América Latina. Esta organização, reconhecida oficialmente pelo governo da Galiza (Galícia em espanhol), palestras semanais, encontros periódicos e caminhadas preparatórias (www.santiago.org.br).

A “Credencial del peregrino’’.

Além deste trabalho voluntario de seus membros, esta entidade fornece gratuitamente a ‘’credencial del peregrino’’, documento oficial das confrarias espanholas que dá direito aos andarilhos de pernoitarem em albergues especiais, igrejas e monastérios ao longo de toda a rota. Nele, há varias lacunas em branco para serem postos carimbos nos lugares em que o peregrino pernoitar. Assim, mais tarde ao chegar em Santiago, o caminhante receberá um belo diploma escrito em latim, coroando sua peregrinação. Para conseguir o ‘’passaporte de peregrino’’, basta entrar em contato com a entidade e provar que viajará á Espanha.

A melhor época

Usualmente, as melhores épocas do ano para iniciar a jornada são finais de abril até inicio de junho, ou então do meio de setembro até o inicio de outubro (primavera e outono europeus). A fórmula é simples: tentar escapar dos extremos, no caso o inverno (sempre rigoroso para os padrões tropicais e com boa parte dos albergues fechados) e o verão (deveras cálido e com as rotas e albergues sempre lotados).

O quanto levar?

Para quem quer fazer o caminho usufruindo da rede de albergues, não despenderá muitos euros com estadia. As estalagens costumam ser oferecidas aos viajantes com preços módicos, a título de contribuição, que varia entre 3 a 5 euros o pernoite. É claro que quem preferir dormir em pensões e hotéis gastará muito mais de acordo com o nível desejado. Já no item alimentação, a comida servida ao norte da Espanha além de muito boa é barata, haja vista serem grandes produtores de carne, cereais e vinho. Uma refeição completa sai em media a 15 euros (com o vinho incluso). Em muitos locais há o “menu del peregrino”, com preços promocionais para quem apresentar a credencial.

Assim, deixando de rodeios e indo direto ao assunto: embora seja uma decisão pessoal, que varia de acordo com a necessidade de conforto e segurança de cada um, vou arriscar a dar uma quantia para gastos na Espanha: 800 euros (apenas para o Caminho). Lembro que, de qualquer forma, é interessante o moderno peregrino levar um cartão de credito internacional para qualquer eventualidade além de, é claro, um seguro médico internacional. Também, é bom ter em vista que o povo espanhol tende a confirmar uma tradição de séculos em cuidado aos peregrinos, oferecendo até comida em alguns casos aos mais necessitados.

Importante: você terá que levar seu próprio saco de dormir. Outra dica: compre ele de acordo com o clima que você vai pegar (há de vários tamanhos). Pesquise!

Os preparativos

O caminho de Santiago começa bem antes da partida dos peregrinos à Espanha. Cuidados são necessários na hora de comprar o equipamento e selecionar a bagagem – afinal, a mochila, e o que estiver dentro dela, estará por longos quilômetros nas costas do andarilho. Por isso, se você pretende fazer essa loucura aventura de percorrer o caminho a pé, leve uma mochila de boa qualidade e seja econômico no peso que carregar dentro dela (nunca mais de 10% do peso de seu corpo). Lembre-se que o caminho de Santiago de Compostela é um exercício de desapego!

Também, um preparação física básica pode lhe ser muito útil. Ao contrário de quem sai diretamente de uma mesa de escritório direto para os montes de Navarra (eu), aquelas que se preparam acabam passando por dificuldades bem menores, principalmente no inicio da viagem, fazendo etapas diárias entre 20 e 25 quilometros, com jornada médias de 8 horas diárias, sobrando tempo e disposição para conhecer os monumentos históricos.

Os Albergues

Quem já frequentou albergues da juventude, não terá problemas em acostumar-se a um “refugio de peregrinos” (nome em espanhol). Nos últimos anos, as prefeituras e associações espanholas têm procurado a melhorar as condições físicas dos já existentes, além de construir outros mais. Eles geralmente fecham para a limpeza pela manhã (9h ou 10 h) e abrem pela tarde (16h ou 17 h). Para ficar, basta apresentar a credencial de peregrino a modesta quantia sugerida. As pessoas dormem em beliches de moles com colchão nu, onde o peregrino deve instalar seu saco de dromir.

Não se aceita reservas prévias e é obedecida a ordem de chegada, embora os que caminham a pé tenham (teoricamente) prioridades sobre os ciclistas, mesmo que chegando depois. Os banheiros, assim como os quartos, geralmente divididos por homens e mulheres juntos, tendem a ficar, no final do dia, em estado péssimo de higiene dado a quantidade de pessoas que usaram por todo o dia. Inclusive, é prova de educação do viajante limpar tudo o que sujou, tendo sempre em mente que outro peregrino em seguida usará os recintos da estalagens.

Há nos albergues locais para lavar a roupa e em muitos existem também cozinha para os viajantes prepararem sua comida. Mesmo contando somente com um mínimo de conforto, aqui vai minha opinião: se você fizer o Caminho, procure ficar sempre nos albergues de peregrinos, deixando de lado a tentação de dormir em hotéis. Sim, pois é lá que você conhece o verdadeiro Caminho, convivendo com os andarilhos e compartilhando, desde comida até emoções.

É claro que você pode preferir em algumas poucas cidades pagar uma pensão barata e usufruir da privacidade, o caminho é um território livre.

Outra coisa que o peregrino brasileiro deveria saber, são palavras e pequenas expressões em espanhol a fim de facilitar o dialogo com os colegas de estrada, tanto andarilhos quanto pastores e moradores dos povoados. Embora não seja algo alarmante você falando somente seu “portunhol”, haja visto que as pessoas no caminho se esforçam verdadeiramente para entender umas as outras, acho que estas noções básicas da língua de Cervantes serão de grande valia.

De onde iniciar o caminho?

Lembrando o conceito de “território livre”, o moderno peregrino tem direito a escolher o ponto de partida de seu caminho. Embora possa perceber algo diferente do apregoado na imprensa sobrea rota, não há um ponto fixo de saída de peregrinos. Ou seja, está errado dizer que para “fazer o caminho inteiro” tem que sair de Saint-Jean-Pied-de-Port ou de Roncesvalles. Hoje em dia, as pessoas adaptam seu caminho ao tempo de férias. Por exemplo, quem possui 32 dias efetivos de caminhada, parte de Saint-Jean, na França (775 quilometros de compostela); 22 dias, faz o caminho desde Burgos (487); 15 dias, desde Astorga (258); 7 dias, desde O Cebreiro (153 quilometros).

É de se ressaltar que apenas receberá a compostelana quem provar pelos carimbos da credencial ter feito ao menos 100 quilometros a pé ou 200 de bicicleta. Minha opinião é que quanto mais distante de Santiago o peregrino sair, mais intensa e rica em experiências será a viagem. Para os amigos, recomendo sempre o povoado de Roncesvalles como meu ponto preferido de partida. Claro que, não havendo essa possibilidade (falta de tempo, por exemplo), a pessoa pode sem problemas fazer a metade ou apenas um terço do roteiro.

Saint-Jean e Roncosvalles

Para chegar a Roncesvalles ou Saint-Jean desde Madri, pode-se pegar avisão, trem ou ônibus até a cidade de Pamplona. De lá, há linhas de ônibus até o povoado de Burguete e, a partir deste ponto, táxi a Roncesvalles ou Saint-Jean.

 É claro que para economizar tempo, toma-se taxi desde o aeroporto de Pamplona até um destes povoados, principalmente se for um grupo que dividirá a conta (aproximadamente 160 euros para Saint-Jean e 110 reais para Roncesvalles, aproximadamente). Chegando em Saint-Jean, o motorista deixará o andarilho próximo a parte histórica da cidade (fechada a automóveis), onde há um albergue de peregrinos.

Escolhendo Roncesvalles, deve-se ir direto ao prédio do seminário Mayor de Santa maria, onde é reservado um imenso quarto com beliches, não esquecendo de pela noite acompanhar a missa com uma solene benção dos peregrinos seguindo antigos ritos medievais. Algo fantástico e inesquecível.

IMPORTANTE: informo com pesar que dois brasileiros (em anos diferentes) morreram durande a travessia dos Montes Pirineus, rota que vai de Saint-Jean-Pied-de-Port até Roncesvalles. Havendo neve, as rotas podem ficar escorregadias e com as indicações de direção apagadas. Informe-se antes!

A Rota Aragonesa

Já para os que desejam aventura e solidão, há também um outro itinerário possível, a não menos tradicional rota Aragonesa que passa por Somport na fronteira franco-espanhola, mais ao sul, e que se une com o primeiro trajeto na cidade de Puente la Reina, 200 quilômetros depois. É uma rota mais difícil, com poucos lugares dotados de albergues e longas distancias entre os povoados. Também mais rústica, longa e solitária que o trajeto anterior. Os peregrinos que elegerem este traçado devem seguir as instruções anteriores até a cidade de Pamplona. De lá, podem pegar um ônibus até o povoado de Jaca e 29 km de táxi até a fronteira (uns 60 euros). Lembro que Somport não é cidade, e sim um mero ponto geográfico com apenas um monumento e aduana desativada separando os dois países, sem, portanto, possibilidade garantida de albergar-se ou comprar mantimentos. Há nas cercanias um refúgio de caçadores bem rústico que pode ser usado por peregrinos, mas não faz parte da rede oficial de albergues, podendo este ficar fechado boa parte do ano.

Assim, chegando em Somport, o peregrino deve saltar do taxi e inicias imediatamente a rota, tendo o povoado seguinte dotado de certa infra-estrutura só 7km depois, em Confranc Estacion. Do mesmo modo que os destinos anteriores, dá para economizar tempo indo direto de táxi de Pamplona a Somport ou até o povoado de Jaca (pernoitando no albergue e tomando bem cedo o táxi até a fronteira).

Por que ir?

Ninguém precisa de motivos específicos para fazer o caminho. A grande maioria das pessoas descobre suas razões ao percorrer a rota. Como dizia o poeta espanhol Antônio machado, “caminhante, são suas pegadas o caminho, se faz o caminho ao andar”. Não há, portanto prazos, limitações, guias turísticos, pontos fixos de partida ou chegada. Não é necessário ser jovem ou atleta para ser um peregrino.

Vi pessoas de todas as idades, desde crianças acompanhadas dos pais, até um senhor basco de 82 anos. Conheci também um holandês cego e pessoas que caminham sem dinheiro, mendigando por comida. Segundo Danilo Tiisel, fundador da primeira Associação de Amigos do Caminho no Brasil: “Você caminha o quanto seu corpo aceitar; come, descansa e dorme onde a fome ou à noite o encontrarem. Com prudência, você será seu próprio guia”.

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BOM CAMINHO!

Levem abraço meu ao Apósto São Tiago e uma oração.

Guy Veloso

http://www.guyveloso.com 

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Guia do Caminho de Santiago de Compostela – Guy Veloso

Guia para 30 Dias (efetivos de caminhada para alguém com preparo físico mediano).

Sugestão de trajeto a pé pelo Caminho Francês a partir do povoado espanhol de Roncesvalles. Todos os pontos de chegada possuem albergues de peregrinos.

Texto e fotos © Guy Veloso, 1999 (reg. Biblioteca Nacional).

Caminho de Santiago Saint James road Camino de Santiago

Manjarín-León. (c) Guy Veloso

1º DIA: Roncesvalles – Larasoaña (27 km – etapa de dificuldade média).

O peregrino é brindado logo no primeiro dia de caminhada com Bucólicos bosques. O trajeto passa entre fazendas e vinhais, além de cinco vilarejos. Em Larasoaña, o próprio prefeito local, Sr. Santiago Zubiri, fará as honras da casa.

2º DIA: Larasoaña – Cizur Menor ( 20 km – etapa fácil).

Mais túneis verdes até a chegada a uma grande cidade, Pamplona, com todos os serviços que o viajante possa necessitar. Uma hora depois de Pamplona, o peregrino pode alberguar-se em um belíssimo povoado, Cizur Menor, escolhendo um dos três estalagens possíveis (sugiro o pernoite em colchões postos no chão da Igreja de San Juan, cuidada pela Ordem de Malta).

3º Dia: Cizur Menor –  Puenta la Reina ( 19 km –  esforço médio).

O peregrino apreciará a belíssima vista desde o topo do Monte do Perdão. Nesta etapa, ao passar pela vila de Muruzabal, antes de Obanos, não deixe de desviar-se um pouco da Rota (20 minutos) para conhecer a igreja românica octogonal de Eunate, antiga possessão dos Cavaleiros Templários, um dos mais belos monumentos de todo o Caminho.

4º DIA: Puente la Reina –  Estella (22,5 km –  fácil).

Nesta etapa, dois magníficos povoados medievais, Mañero e Ciruaque. Em Estella tem virado costume dos peregrinos brasileiros visitarem um abrigo de velhinhos, situado ao lado da Igreja de Santo Domingo.

4º DIA: Estella – Los Arcos (21 km – médio).

Você não vai acreditar: há uma fonte que além de água, dá vinho (grátis) aos peregrinos na saída de Estella. Fica no lado de fora de uma vinícola, ao lado do Monastério de Irache. Ao chegar na vila de Ázqueta, você pode procurar conhecer Pablito, um personagem do Caminho, que nas horas vagas dedica-se a presentear os peregrinos com levíssimos e resistentes cajados de madeira talhados por ele. Depois de Ázqueta, pouca vegetação e uma grande planície antes de chegar a Los Arcos com o sol queimando o corpo e a alma.

6o DIA: Los Arcos – Logroño (28 km – fácil).

Não deixe de conhecer a igreja octogonal do Santo Sepulcro em Torres del Rio. Se ela estiver fechada, simplesmente pergunte pela senhora que guarda as chaves, que certamente aparecerá alguém para mostrá-la a você.

7º DIA: Logroño – Nágera (30 km – etapa de esforço médio para difícil).

Imagine uma planície solitária interminável… Se você tiver ainda fôlego, conheça em Nágera o Monastério de Santa Maria la Real e a lenda da aparição da Virgem em uma gruta.

8º DIA: Nágera – Grañon (27km – médio).

Um passeio pelos campos. Pare em Santo Domingo de la Calzada no intuito de apreciar a curiosíssima gaiola com um galo e uma galinha vivos dentro do templo. Se quiser ver onde se cria os galináceos da Igreja, é só dar uma espiada na lavanderia do albergue de peregrinos. Curioso albergue de Grañon, dentro de uma Igreja, onde nada lhe será cobrado. Pela noite, participe lá dos rituais especiais aos peregrinos.

9º DIA: Grañon – Belorado (16km – fácil).

Trajeto muito fácil até Belorado. Quem estiver bem fisicamente, pode seguir adiante até Villafranca Montes de Oca, ou até mesmo San Juan de Ortega. Mas quem estiver cansado, pode ficar em Viloria de La Rioja, no Albergue brasileiro no Caminho.

De qualquer forma, vale parar em Viloria e conhecer o Refúgio do hospitaleiro Acácio (06,5km depois de Grañon, e 9,5km antes de Belorado).

10º DIA: Belorado – San Juan de Ortega (24km – esforço médio).

Algumas subidas a partir de Villafranca. Não esqueça a água do cantil: você vai precisar!

11º DIA: San Juan de Ortega – Burgos (28 km – médio).

Nesta etapa, atravessamos toda a parte industrial de Burgos antes de chegar ao albergue, situado justo na saída da cidade. Visite a Catedral gótica, Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

12º DIA: Burgos – Hontanas (24km – fácil para médio).

Um passeio pelos campos.

13º DIA: Hontanas – Boadilla (29km – médio para difícil).

Em Castrojeriz, conheça Tonho e Maria Jesus, casal dono do bar “La Taberna”, grandes amigos dos brasileiros (mande um abraço meu!). Logo após Castrogeriz há uma subida de 45 minutos. Meia hora depois, no meio do nada, Ermida de San Nicolás, habilitada como albergue de peregrinos em alguns meses do ano (verão). Lá, é realizado pela Ordem de Malta (administradora do refúgio) antigos rituais de acolhida aos peregrinos hospedados. Albergue novo em folha em Boadilla del Camino.

14º DIA: Boadilla – Carrión de los Condes (25km – médio).

Em Frómista conheça a Igreja românica de San Martin, uma das jóias deste estilo arquitetônico na Europa. Pare no povoado de Villacázar de Sirga para conhecer a Igreja de Santa María la Blanca, que também pertenceu – assim como todo o povoado – aos Templários. Em Carrión, fique no albergue ao lado da Igreja de Santa Maria, cuidado pela prestativa e sempre sorridente Sra. Margarida.

15º DIA: Carrión – Terradillos de los Templários (27km – difícil).

Primeiros 17 quilômetros inteiramente desérticos através de campos cultivados. Leve bastante água no cantil! Hospedagem em uma albergue particular com camas individuais e lençóis limpos. A Sra. Mariza lhe tratará como membro da família.

16º DIA: Terradillos – Burgo Raneiro (31 km – médio).

Monótono pelos campos quase sempre desertos.

17º DIA: Burgo Raneiro – León (38 km – médio).

Em León, não perca o Museu da Igreja de San Isidoro com seus afrescos românicos, e a Catedral com seus vitrais. Há 2 albergues de peregrinos na cidade. O meu preferido é o Convento de Santa Maria del Carbajal (no Centro Histórico). Lá, ao cair da tarde os peregrinos são chamados pelas freiras para participarem como convidados especiais de uma singela cerimônia com cânticos devocionais. No mais, usufrua de uma grande cidade com todos os serviços possíveis (lavanderias, cyber-cafés, bares, restaurantes etc…).

18º DIA: León – Villadangos del Páramo (19km – fácil).

Caminhos por áreas industriais e seguindo a auto-estrada.

19º DIA: Villadangos – Astorga (26km – fácil para médio).

Em Astorga, conheça a Catedral Gótica e o Palácio de Gaudi.

20º DIA: Astorga – Manjarin (30 km – difícil).

Depois de Astorga, faça um ligeiro desvio da Rota tradicional, entrando no povoado de Murias de Rechivaldo (a trilha normal vai pela esquerda sem passar na vila) para, dez minutos além, conhecer o belíssimo povoado de Castrillo de Polvazares, todo em pedra. Depois, há uma subida difícil ofuscada pela beleza da paisagem. Ao chegar na Cruz de Ferro (monte de pedras com um mastro de carvalho coroado com uma cruz), é tradição você acrescentar uma pedra ao montículo. Se você tem espírito aventureiro, deve pernoitar no albergue de Manjarin, o mais rústico do Caminho e um dos preferidos pelos “esotéricos”. Pela manhã, Tomás, o hospitaleiro, oferecerá um café gratuito. Ao meio-dia (mais ou menos) conduzirá uma cerimônia Templária. Verdade!

21º DIA: Manjarin – Molinaseca (20 km – fácil).

Descida (cuidado com os joelhos). Piscinas naturais no belíssimo povoado de Molinaseca. No albergue, Alfredo, o hospitaleiro, comandará o papo, regado ao bom vinho da Região.

22º DIA: Molinaseca – Villafranca del Bierzo (31 km – fácil para médio).

Na cidade de Villafranca, há dois albergues. Um da prefeitura, novo e confortável, mas sem nenhuma personalidade. O outro, o tradicional Refúgio Ave Fênix, de Jesus Jato, um senhor que há 30 anos acolhe os peregrinos em sua casa. Em noites frias, ele faz um curioso ritual queimando ervas em uma vasilha de cerâmica, tendo o álcool como base, fazendo uma bebida fortíssima, o Orujo.

23º DIA: Villafranca – O Cebreiro (30 km – difícil).

A maior subida do Caminho (a partir de Roncesvalles). Etapa realmente espinhosa… No Cebreiro, conheça o milagre da carne e do sangue de Jesus.

24º DIA: O Cebreiro – Monastério de Samos (27 km – médio).

Etapa belíssima através dos bosques. Hospedagem na própria Abadia. Experimente o mel produzido pelos monges. Não perca as “visperas” (celebração íntima dos abades).

25º DIA: Samos – Ferreiros (27km – médio).

Um mergulho na vida rural.

26º DIA: Ferreiros – Palas de Rei (34km – médio).

Túneis verdes.

27º DIA: Palas de Rei – Ribadiso de Baixo (25km – fácil).

Em Melide, conheça uma “pulperia” (casa de degustação de polvos e vinhos). A melhor fica na rua principal do povoado que coincide com o Caminho. Belíssimo albergue de Ribadiso de Baixo, um dos melhores do Caminho.

28º DIA: Ribadiso – Arca (22km – fácil).

Belas rotas verdes. Tome muito cuidado ao atravessar a auto-estrada. Estamos chegando…

29º DIA: Arca – Monte do Gozo (16km – fácil).

Belíssima vista da cidade de Santiago de Compostela a partir do Monte. Se você é ansioso, dificilmente ficará neste albergue, há apenas 4 quilômetros da Catedral de Santiago.

30º DIA: Monte do Gozo – Santiago de Compostela (5 km – fácil para o corpo, difícil para o coração). A maioria dos peregrinos vai direto de Arca a Santiago. Se não der, há um imenso albergre bem próximo de Compostela.

Assista a missa do peregrino na Catedral ao meio-dia. Emoção da chegada gratifica todo o esforço destes 30 dias.

Bom Caminho!

Guy

http://www.guyveloso.com

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Peregrinando al encuentro de si Mismo //Peregrinando ao encontro de si mesmo

Em português neste link

 

PEREGRINANDO AL ENCUENTRO DE SI MISMO

 

Guy Veloso. 

Escritor y fotógrafo (autor de Via Láctea – Pelos Caminos de Santiago de Compostela).

Texto registrado el la Biblioteca Nacional.

http://www.guyveloso.com

 

Fue en el año 1993, tenía 23 años y -como todos decían- “una vida entera por delante”. Recién terminada mi carrera de Derecho y antes de ejercer la profesión, deseaba vivir una gran aventura: imitar los pasos de los peregrinos medievales cruzando a pie España de punta a punta hasta la ciudad de Santiago de Compostela, donde se cree está sepultado Santiago uno de los doce apóstoles de Jesús. Era un viaje misterioso de 800 kilómetros que duraría poco más de un mes. Sería un tiempo para pensar en aquella “vida entera” que estaba por venir  ya terminada la universidad.

Comencé con pasos torpes en una mañana lluviosa desde una pequeña ciudad francesa, Saint-Jean-Pied-de-Port, bien cerca de la frontera con España. Era bastante radical para mi edad: debía terminar el trayecto, siempre caminando, a partir de los Pirineos franceses y sin ceder nunca a la tentación de que alguien me llevará. Llegar al final en aquellos momentos era una cuestión de honor, casi una obsesión, pero también, un premio, un trofeo.

Tardé unos días en adaptarme a la rutina. Recuerdo caminar el día entero a una media de 25 kilómetros por día. Pasar por decenas de pueblos perdidos en el tiempo, con sus  magníficos monumentos, catedrales y castillos. En la mochila, llevaba siempre una cantimplora con agua y algunas frutas, cuyas semillas lanzaba a los lados del camino. Imaginaba que algún día, allí podría crecer un manzano, un naranjo o una vid, quién sabe. Soñaba que en el futuro, el árbol que creciera, podría alimentar a otro peregrino de paso por este mismo camino.

Dormía en albergues especiales esparcidos por toda la ruta. Otras veces me hospedaba en monasterios y colegios católicos. Eran locales sencillos, inclusive rústicos, pero con todo lo que alguien con hambre y extremadamente cansado puede necesitar para transformar aquel lugar en el Palacio del Marajá de Jodhpour. No existía división de clases ni nacionalidades. Todos teníamos los mismos objetivos, pasábamos por los mismos dolores, ampollas, tendinitis, cansancio y ansiedad

En el Camino de Santiago, nos encontramos con nuestros horizontes pero también con nuestras fronteras. Descubrimos pequeñas cosas que no notamos en nuestra vida cotidiana. Vemos el valor de un vaso de agua por haber pasado sed o de un pedazo de pan por haber pasado hambre. El valor de una sonrisa, de una palabra de ánimo. En él nos encontramos con nuestros miedos y vanidades. Es una experiencia donde nos perdemos para encontramos.

Entré en la ciudad de Santiago un martes a las 11:15 del 13 de julio del año 1993. Me acuerdo como si fuera hoy de mi júbilo al ver, por primera vez, las torres de piedra de la inmensa Catedral, donde el trayecto termina. Durante mis últimos pasos en el Camino de Santiago, me di cuenta que lo mejor ya había pasado. “Que llegar” era apenas un detalle. Que el camino que  quedo atrás –junto con sus experiencias- era el verdadero trofeo, aquel que  guardaré para el resto de mi vida.

Desde entonces hasta hoy en día, intente aprovechar esta experiencia personal para el futuro, y  así como escribí estas líneas, como los centenares de fotos que tome,  como las semillas que lancé al camino, quien sabe, germinarán, crecerán y un día alimentarán a otro peregrino que -como yo- cruzo aquellos campos mágicos. En cualquier caso habrá valido la pena. Y mucho.

 

Guy Veloso és fotógrafo y escritor.

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Crônicas do Caminho. Por Guy Veloso

ANJOS

 

Guy Veloso

(c) Texto registrado na biblioteca Nacional. Direitos reservados.

 

IMAGINE UM POVOADO de apenas duas ruas, quarenta casas e um anjo. A vila se chama Azofra e o ser angélico, Maria Tobia. Bem, anjos naquele lugar não era nada muito raro, afinal, a padroeira da povoação é Nossa Senhora dos Anjos. Talvez por isso ventasse tanto ali, a ponto de levantar nuvens de poeira e folhas secas de outono. Muita gente batendo as asas…

Maria Tobia é a responsável pelo albergue de peregrinos, figura muito querida e famosa por seu jeito simples e sincero no trato para com os forasteiros. Ela havia acabado de limpar a estalagem quando eu fui atirado, como que carregado pela ventania, porta à dentro. Ah, antes disto, preciso dizer que logo na entrada do vilarejo, perguntei a uma senhora em qual das duas (únicas) ruas ficava o albergue. Ao invés de responder, ela largou seus afazeres e me levou até a porta da estalagem quase no fim do povoado. Anjos…

Bem, voltando a Dona Maria, mesmo cansada, ela me ofereceu estadia e me deu um cacho de uvas frescas tirado do altar. Sim, o altar de Santa Maria dos Anjos (que ficava colada ao albergue) estava adornado naquele dia com “uvas bentas”. Era o segundo dia das festividades anuais do vilarejo e um pouco da decoração da igreja estava servindo de lanche aos andarilhos.

Mais tarde, fui pegar mais bênçãos (uvas) com Dona Maria, aproveitando para lhe perguntar se necessitava de alguma ajuda. De pronto, ela me mostrou três andores de madeira postos no chão com três imensas imagens barrocas, que tinham sido levadas naquela manhã em cortejo pela aldeia. “Brasileiro, preciso que você as ponha de volta no altar, pois haverá missa solene amanhã com todo o vilarejo reunido”, disse ela. E as imagens eram quase da minha altura…

Chamei os amigos e, acreditem, os brasileiros (eu, Zel, Adelmo e Marcelo) montamos o altar da Igreja de Santa Maria dos Anjos de Azofra. Colocamos cada santo em seu lugar. Cada jarro com flores, cada círio, cada cacho de uva — estas, herança de celebrações pagãs de chegada da colheita, acredito.

Inclusive, posicionamos a Nossa Senhora dos Anjos em seu nicho, cinco metros acima do nível do chão (juro! O Zel tem as fotos para provar). Só com a força de nossas mãos — e ajuda dos anjos. Tudo sob o olhar entusiasmado e confiante de Dona Maria Tobia, que, em momento algum (ao contrário de nós) achou que despencaríamos do altar junto com os santos barrocos do século XVIII da única igreja das redondezas.

Dia seguinte, os brasileiros “que montaram o altar” foram a grande novidade da missa festiva. Sim, absolutamente todo o povoado já sabia da história. Na rua, na praça, no bar, pessoas desconhecidas vieram nos cumprimentar e conversar. Em lugares pequenos como aquele, histórias como esta voam. Como os anjos.

 

(Para Zel, Cris, Adelmo, Marcelo, Erick, Claudinéa, Mário, Luciano, Dalva, Dora, Violeta, Valquíria, Fátima e Juliana. Ultreya!).

 

 Guy Veloso é fotógrafo e escritor

http://www.guyveloso.com

 

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Crônica de um peregrino // With a backpack, crossing Spain on foot

English above

DE MOCHILA, CRUZANDO A ESPANHA A PÉ .
Uma rota medieval de 800 quilômetros em que “chegar” é o menos importante.

Texto de © Guy Veloso.  Registrado na Biblioteca Nacional.

 

Originalmente publicado no Jornal Valor Econômico em 2003. 

 

“Caminhar faz muito bem à saúde, meu filho” – disse uma tia antes de eu embarcar à Espanha para “fazer umas trilhas”, como havia espalhado na família. Ela só não sabia que seriam 800 quilômetros… Havia escondido de todos esta minha pretensão. Era o ano de 1993. Tinha 23 anos e – como diziam – “uma vida inteira pela frente”. Recém formado em Direito, antes de exercer a profissão queria em um mês imitar os passos dos peregrinos medievais, cruzando a pé e de mochila todo o norte da Espanha. De ponta a ponta. Seria um tempo para pensar naquela “vida inteira” que estava por vir, fora dos bancos acadêmicos. Era o que hoje está tão em moda entre empresários, socialites, artistas e outros maios ou menos endinheirados: o ano (ou mês) sabático.

Caminho de Santiago Saint James road Camino de Santiago

Foto: Guy Veloso. Catedral de Astorga. Slide.

Comecei em passos trôpegos em uma manhã chuvosa desde uma cidadezinha francesa, Saint-Jean-Pied-de-Port, bem perto da fronteira com a Espanha. Para trás ficaram sete anos, mais lembro agora perfeitamente do cheiro de mato molhado pairando no ar junto com a neblina, ao subir os Montes Pirineus por trilhas de pastores em meio a pastagens e bosques desertos. Recordo até os pensamentos, a alegria de estar iniciando uma grande aventura, como também o medo, pavor de não conseguir. Sim, pois o assombro da derrota era aquela altura mais voraz do que temores naturais de sobrevivência naquele lugar nada familiar. E eu era bastante radical para a idade: deveria completar o trajeto, sempre caminhando, a partir dos Pirineus franceses, sem nunca ceder a tentação de pegar uma carona. Na verdade, esperava que ao final, ao chegar na cidade de Santiago de Compostela depois de um pouco mais de um mês, resolvesse algumas questões interiores e – principalmente – conhecesse mais de mim mesmo. Chegar, naquela época, era questão de honra, quase uma obsessão. Mas também, um prêmio, troféu.

Em alguns dias adaptei-me ao cotidiano: acordar cedo, caminhar o dia inteiro (média de 25 quilômetros), passar por dezenas de povoados perdidos no tempo (com suas heranças magníficas, catedrais e castelos), e pela noite empanturrar-me de vinho (descobrindo as diversas nuances de acordo com os micro-climas do norte espanhol à medida que avançava). O sol raiva pungente sobre meu rosto, por vezes a chuva. A mesma que beijava tanto minha face quanto os campos verdes ao meu redor. Cada dia diferente do outro. Cada dia de cada vez.

Progredia lentamente, geralmente sozinho, pelas veredas rurais, seguindo indicações em forma de setas pintadas sempre em amarelo nas árvores, pedras, troncos etc. As “flechas amarelas” eram minhas estrelas-guias. Por mais que eu tivesse em mãos alguns mapas, era pelas marcações amarelas que eu me orientava. Levava na mochila sempre água e algumas frutas, cujas sementes eu jogava na beira da estrada. Imaginava que ali poderia crescer uma macieira, laranjeira ou videira, sei lá. Divagava que no futuro viria a alimentar um outro peregrino de passo por esta mesma estrada.
Dormia em albergues especiais espalhados por toda a Rota, mantidos por associações de peregrinos ou pelas prefeituras locais. Outras vezes, ficava hospedado em monastérios e colégios católicos. Locais simples, rústicos até, mas com tudo que alguém com fome e extremamente cansado pode necessitar para transformar aquilo no Palácio do Marajá de Jodhpour: uma cama limpa, cozinha, banheiro. E só.

Ah, tinha também os amigos. Pessoas de todas as partes do mundo que se espremiam entre beliches e mochilas coloridas espalhadas pelo chão. Gente que eu nunca tinha visto na vida, mas que logo estavam dividindo comigo um pouco de sua comida, trocando informação sobre as trilhas ou embebedando-se nas tabernas. Todos dormiam juntos em um grande quarto, e na maioria das vezes até o banheiro era dividido por homens e mulheres. Ali não havia divisão de classes. Estavam todos com os mesmo objetivos, deitando em camas iguais, passando pelas mesmas dores (bolhas, tendinites, cansaço) e ansiedades. Compartilhávamos todos os mais secretos sentimentos e segredos. Éramos uma grande família peregrina. Aquela terra, aquele caminho nos unia. Dia após dia, milha depois de milha. Montanhas, florestas, campos secos e cidades. O cansaço, por vezes a solidão. Não raro, achava estar louco por passar por tudo aquilo.

No Caminho de Santiago, deparamos com nossos horizontes e com nossas fronteiras também. Descobrimos pequenas coisas que não notamos em nossa vida diária. Vemos o valor de um copo d’água por termos passado sede, ou de um pedaço de pão por termos passado fome. Um sorriso ou palavra de incentivo. No Caminho, damos de cara com nossos medos e vaidades. Nos perdemos; nos encontramos. E avançamos sempre a oeste. Rumo a Compostela.

Adentrei à cidade de Santiago em uma terça, às 11:15 do dia 13 de julho de 1993. Lembro-me como hoje de meu júbilo ao ver pela primeira vez as torres de pedra da imensa Catedral – onde o trajeto oficialmente termina. Durante meus últimos passos no Caminho de Santiago, mesmo que extremamente feliz de concretizar um sonho, vi que o melhor já tinha passado. Que “chegar” era apenas um detalhe. Que o caminho que ficou para trás – junto com suas experiências –, isto sim, era a verdadeiro troféu, aquele que eu guardarei para o resto da vida.

De lá para cá, mudei bastante. Não exerci a advocacia, rompi com um amor e com vários conceitos e preconceitos. Criei sonhos e enterrei mágoas. E muito disto foi em conseqüência desta minha viagem. De lá até os dias de hoje, tentei passar esta minha experiência adiante. Assim como eu desenhei estas letras. Assim como as sementes que joguei à estrada. Se elas vicejarão, crescerão e um dia alimentarão outro peregrino que – como eu – cruzou aqueles campos mágicos, eu não sei. Terá valido a pena de qualquer forma. E muito.

Guy Veloso é fotógrafo e escritor. Autor de Via Láctea – Pelos Caminho de Santiago de Compostela.

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With a backpack, crossing Spain on foot.

A 497 miles medieval route, where arriving is the less important.

 

Guy Veloso

 

“Walking is good to your health, son” – said an aunt of mine before I had gone “hiking” in Spain, as she told to all my relatives, but she only didn’t know that it would be 497 mi.

I have hidden this intention from everybody. It was in the year of 1993. I was 23 and – like everyone says – I had a long life to live. Just graduated in Law College, before being a lawyer effectively, I wanted to redo the medieval peregrine’s steps, crossing the North of Spain in a month. It must be a time to think about “all the life to come”, far away from College stuffs. It was what we call today: the sabbatical year (or month), well-known by businessmen, socialites, artists and others more or less wealthy ones.

I started with feeble steps in a rainy morning from a little French town called Saint-Jean-Pied-de-Port, right next to the borderline to Spain. Seven years were left behind. But I perfectly remember the smell of the wet plants blended to the fog, when I was going up the Pyrenees Mountains by shepherd’s trails among fields and woodlands. I remember even the thoughts and the happiness of starting a great adventure, as well as the fear of failure. Yes, the fear of failure was huger than the natural surviving worries in that not familiar place.

And I was too radical to that age: I must finish the route always walking from the French Pyrenees without giving up for a ride. Actually, I hope that, in the end, arriving in the city of Santiago de Compostela, after about one month, I could solve some inner troubles and maybe to know a little bit more about me. Arriving was an honor matter, almost an obsession. But it also was a prize, a trophy.

In a few days, I was conformed to the everyday activities: wake up early, walk all day long (almost 25 km per day), move through villages lost in time (with their wonderful legacy, castles and cathedrals), and drown myself in wine at night, discovering plenty of nuances according to the North Spain weather. The sun shone brightly in my face. Sometimes, it was the rain, the same rain which kissed my face as the green fields did. Each day different from another. Each day by its time.

I went ahead lengthily, alone most of the time following arrows painted yellow on trees, stones, etc. The yellow arrows were my lodestar. Although I had some maps in my hands, I was guided by those yellow signs. I always carried water and some fruits inside my backpack. I threw all the fruits seeds on the ground, wondering that any tree could be born there. I wondered if that tree, those fruits could feed any other walker passing though that same way.

I slept in special hostels supported by associations or by the local government. I sometimes stayed in monasteries or catholic schools. They were simple and rustic, but there were everything that a hungry and tired man needed. And it became a palace for me: clean bed, a kitchen and a bathroom. That’s all.

There were also the friends. People from everywhere who squeeze themselves among the beds and bags on the floor. People I had never seen before, but soon we were sharing food, changing information about trails or getting drunk in pubs. We all slept together in a large room. And most of times, even the bathroom was used by men and women.

There weren’t social ranks. Everybody had the same goal, lying down on equal beds, going through the same pain and anxiety. We were a big peregrine family. That land, that way put us together.

Day after day, mile after mile. Mountains, forests, thirsty fields and cities. Sometimes there were weariness, sometimes loneliness. I doubted to be crazy.

On Santiago’s way, we faced our limits. We’ve realized such as small things we’d never realize in our lives. We could measure how valuable is a glass of water because we had thirst, or a slice of bread because we had hunger. On that way, we found our fears and vanities. We lost and then we found ourselves. Go due Compostela.

I entered the city of Santiago on a Thursday, July 13th, 1993 at 11:15. I remember my gleefulness in seeing the stone towers of the great Cathedral for the first time, where the route finally ends. During my last steps, I was so happy in seeing my dream becoming true. I saw that the best has just passed. Arriving was only a small detail. All the way I left behind, all my experiences – those are my real prize that I’ll keep for the rest of my life.

Since then, I’ve changed my mind lots of times. I didn’t become a lawyer. I’ve broken up with a love and several ideas. I have built dreams and killed the sorrows off. And it was because of my trip. I’ve been trying to give this experience out. As I’ve drawn these letters. As the seeds I threw on the ground. I don’t know if they are going to flourish and feed another peregrine like me. But it’s worth its price anyway.

 

(c)  Guy Veloso, writer and photographer .

First published in “Valor Econômico” Newspaper in 2003. More articles and information about the “way to Santiago de Compostela” on the website: santiago.com.br.

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Um livro

livro caminho de santiago de compostela

 

Via Láctea – Pelos Caminhos de Santiago de Compostela, de Guy Veloso. Ed. Sedna. 5a edição. Ilustrada com fotos do autor.

À venda na Livraria Saraiva. Link

Obra sugerida pelas Revistas Trip, Traveller,Terra, Horizonte Geográfico, Bons Fluidos, Nova e Planeta.
Veja fotos do Caminho feitas pelo autor. Link. Veja uma crônica sobre o Caminho do mesmo autor. Link.

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Dicas (albergues)

Minhas dicas especiais (os albergues).

caminho santiago

Texto e fotos © Guy Veloso, 1999 (reg. Biblioteca Nacional).

Há entre a longa rede de estalagens do Caminho uns que se destacam pela sua
singularidade ou pela atenção dispensada aos peregrinos.

Abaixo, enumero os meus preferidos. Se você vier a fazer o Caminho de verdade, com intenção maior de “busca”, não meramente com intuito turístico, não deixe de hospedar-se neles (chamados “Refúgios”), mesmo que alguém lhe sugira uma outra hospedaria quiçá mais confortável… mesmo se o Hilton começar a dar estadia grátis aos andarilhos!

Aqui a minha lista:

Roncesvalles: O que vale a pena mesmo é a bênção de partida aos peregrinos
no final da tarde (verifique horário).

 

Eunate: Na mais enigmática igreja do Caminho, há um albergue ao lado. Eles fazem visitas ao templo com velas…

 

Viloria de La Rioja: Albergue brasileiro no Caminho. Mandem por favor um abraço meu para o Acácio (que vai lhe dar todas as dicas mais recentes do Caminho). http://refugioacacioorietta.blogspot.com/2007_06_13_archive.html

https://www.facebook.com/pages/Refugio-Acacio-Orietta/238619009515034?fref=ts

  
Grañón:
você dorme dentro da igreja. Participe depois do jantar (gratuito, por sinal) de um singelo ritual junto com o pároco e os outros peregrinos.

Castrojeriz: Mesmo não sendo uma hospedaria, conheça o bar/restaurante “La Taberna”, de Toño e María Jesus, amigos dos brasileiros. Mande um abraço meu ao casal!

San Nicolas de Pontefítero: Aberto somente alguns meses do ano (geralmente no verão). Refúgio da Ordem de Malta. Os peregrinos são convidados a participar de antigos rituais. Imperdível!

Molinaseca: o povoado é belíssimo e seu albergue cuidado por Alfredo, um
amigo dos brasileiros. Vida noturna agitada por mais de 50 bares na rua
principal da vila. Mande um abraço meu para o Alfredo.

Manjarí: Você tem que conhecer Tomás, o Templário. Às vezes há um (incrível) ritual de manhã, exatamente ao meio dia – mas no horário de Jerusalém.

Villafranca del Bierzo: Albergue particular Ave Fênix, de Jesus Jato. Este
homem há mais de 40 anos atende aos peregrinos em sua própria casa. Pela noite, o famoso ritual da queimada. Imperdível.

O Cebreiro: Não deixe de pernoitar neste povoado mágico. Conheça a igreja
que há séculos guarda um milagre. Se quiser aventura, no imenso e novo
albergue da vila pergunte pela Palloza, antiga vivenda de pedra de origem
celta, habilitada como refúgio nos períodos de alta estação. Lá, você dorme
no chão em cima da palha, velado de perto pelos antigos mestres que
habitavam aquelas terras.

BOM CAMINHO!

Guy

 

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